Conhecer o Maranhão além dos Lençóis é descobrir um estado formado por diferentes paisagens, tradições e capítulos da história brasileira. O roteiro pode começar no casario de São Luís, passar pela cidade histórica de Alcântara, avançar até as cachoeiras da Chapada das Mesas e terminar entre rios, manguezais e ilhas do Delta das Américas.
Os Lençóis Maranhenses continuam sendo uma das principais atrações do estado, mas não resumem a experiência de viajar pelo Maranhão. Para aproveitar melhor a viagem, vale combinar natureza, patrimônio, gastronomia e manifestações culturais em um itinerário que considere as distâncias entre as regiões.
São Luís: azulejos, casarões e uma história de encontros
A capital maranhense é uma das principais portas de entrada para quem deseja conhecer o estado. Seu Centro Histórico preserva ruas, praças, igrejas e casarões associados à formação colonial da cidade. O conjunto foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco, como Patrimônio Mundial em 1997.
São Luís foi fundada pelos franceses em 1612, passou pela ocupação holandesa e depois ficou sob domínio português. Essa sequência de disputas ajuda a explicar a diversidade de referências presentes na arquitetura e na história local. A cidade se desenvolveu entre os rios Anil e Bacanga, em uma área estratégica da ilha onde está localizada a capital. (whc.unesco.org)
Uma das marcas mais conhecidas do centro antigo são os azulejos usados nas fachadas. Além do efeito decorativo, o revestimento ajudava a proteger as paredes do calor e da umidade. O visitante encontra construções com balcões, janelas altas, pátios internos e soluções arquitetônicas adaptadas ao clima da região.
Entre os pontos que podem fazer parte do passeio estão a Rua Portugal, a Rua do Giz, o Largo do Comércio, a Praça Benedito Leite, a Catedral da Sé e o Palácio dos Leões. A área também concentra museus, centros culturais, restaurantes, lojas de artesanato e espaços dedicados à memória do bumba meu boi.
Alcântara: ruínas, festas religiosas e memória colonial
Localizada no continente, do outro lado da Baía de São Marcos, Alcântara pode ser visitada a partir de São Luís. A travessia marítima é uma das formas tradicionais de acesso à cidade histórica, mas as condições do percurso podem variar. Por isso, é recomendável confirmar horários, embarque e funcionamento com os canais oficiais antes da viagem.
Alcântara foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, em 1948, como cidade-monumento. Suas ruas de pedra, igrejas, casarões e ruínas revelam diferentes fases da ocupação do Maranhão. A cidade também mantém forte relação com festas religiosas, especialmente a Festa do Divino Espírito Santo.
O contraste entre construções preservadas, fachadas desgastadas e áreas abertas faz parte da paisagem de Alcântara. O passeio costuma ser feito a pé, com atenção ao calçamento irregular, ao calor e à necessidade de reservar tempo para conhecer os espaços culturais e conversar com moradores e guias locais.
Uma curiosidade histórica é que materiais de construções religiosas e civis foram reaproveitados em diferentes períodos. A própria formação de edifícios importantes do Maranhão está ligada a ciclos econômicos, disputas políticas e transformações no uso das cidades. O turismo histórico, portanto, ajuda a observar não apenas a beleza das fachadas, mas também as marcas do tempo.
Bumba meu boi: uma tradição que atravessa o ano
O bumba meu boi é uma das manifestações culturais mais associadas ao Maranhão. A brincadeira reúne música, dança, teatro, personagens, devoção e participação comunitária. Embora ganhe grande visibilidade durante os festejos juninos, sua preparação envolve grupos, artesãos, músicos e comunidades ao longo de praticamente todo o ano.
No Maranhão, os grupos são organizados em diferentes sotaques, ou estilos musicais e coreográficos. Entre eles estão zabumba, matraca, orquestra, baixada e costa de mão. Cada sotaque tem instrumentos, ritmos, indumentárias e formas de apresentação próprias.
O Complexo Cultural do Bumba meu boi do Maranhão foi inscrito pela Unesco na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2019. O reconhecimento considera a relação entre as expressões musicais, coreográficas, performáticas e religiosas da manifestação. (ich.unesco.org)
Para o visitante, a melhor forma de acompanhar a tradição é consultar a programação cultural oficial e respeitar os espaços comunitários. Fotografar e filmar pode exigir cuidado, principalmente quando as apresentações envolvem rituais, promessas ou momentos religiosos.
Tambor de crioula, cacuriá e reggae completam o mapa cultural
O Maranhão tem outras manifestações que ajudam a compreender a diversidade cultural do estado. O tambor de crioula, por exemplo, reúne canto, percussão e dança em uma expressão de origem afro-brasileira. Já o cacuriá combina música, dança e versos em apresentações marcadas pelo movimento dos pares.
Também é importante observar a presença do tambor de mina, ligado a tradições religiosas afro-maranhenses, e das festas do Divino, realizadas em diferentes municípios. Essas práticas têm significados próprios e devem ser conhecidas com respeito, sem reduzir as manifestações a simples atrações folclóricas.
São Luís também é reconhecida pela força do reggae na vida cultural urbana. As radiolas, os bailes e as formas locais de dançar ajudaram a construir uma identidade musical particular na capital. Em um roteiro cultural, vale procurar museus, centros de referência e programações que expliquem essa trajetória.
Chapada das Mesas: cachoeiras e formações de arenito
No sul do Maranhão, a Chapada das Mesas oferece uma experiência bastante diferente da paisagem dos Lençóis. A região é marcada por chapadas, cânions, cavernas, trilhas, rios e cachoeiras. O nome está relacionado aos platôs de rocha que lembram mesas, formados pela ação prolongada do vento e da chuva.
O Parque Nacional da Chapada das Mesas foi criado em 2005 e abrange áreas dos municípios de Carolina, Riachão e Estreito. A unidade de conservação protege uma extensa área de Cerrado, com formações rochosas, buritizais, cursos d’água e ambientes usados por diversas espécies da fauna. (turismo.ma.gov.br)
Entre os atrativos mais conhecidos estão as cachoeiras de São Romão e da Prata, além de trilhas, mirantes e áreas de banho no entorno do parque. O acesso a muitos pontos é feito por estradas não pavimentadas e propriedades particulares. Por isso, o visitante deve verificar as condições do caminho, contratar condutores credenciados quando necessário e seguir as regras de cada área.
A Chapada das Mesas é indicada para quem gosta de caminhadas, banho de cachoeira, observação da natureza e atividades de aventura. O planejamento deve levar em conta o tempo de deslocamento entre os atrativos, a necessidade de transporte adequado e a disponibilidade de água, protetor solar e calçados apropriados.
Delta das Américas: rios, ilhas e manguezais
No nordeste do estado, o Delta das Américas reúne municípios como Tutóia, Paulino Neves, Água Doce do Maranhão e Araioses. A região está sob influência do Delta do Rio Parnaíba, um ambiente formado pela ramificação do rio em diferentes canais antes de alcançar o oceano.
O passeio pode incluir rios, dunas, praias, ilhas, manguezais e observação de fauna. Em Araioses, por exemplo, há áreas de embarque para excursões pelo delta. Em Tutóia, os roteiros combinam praias, lagoas e comunidades que também produzem artesanato com palha, couro, coco, conchas e outros materiais.
Os passeios dependem das condições da maré, do clima e da operação das embarcações. É importante confirmar previamente o ponto de saída, a duração, o que está incluído no valor e os equipamentos de segurança oferecidos. A região é ambientalmente sensível, e o visitante deve evitar deixar resíduos, retirar animais ou plantas e alimentar a fauna.
O Delta também pode ser integrado a roteiros que passam pelos Lençóis Maranhenses. A combinação exige planejamento, porque os deslocamentos entre os municípios podem ser longos e nem sempre há transporte regular entre todos os atrativos. (turismo.ma.gov.br)
Reentrâncias Maranhenses e a força dos manguezais
Outra paisagem importante é a das Reentrâncias Maranhenses, no litoral norte. A área é formada por baías, enseadas, ilhas, canais e manguezais. O ecossistema tem papel essencial para a pesca, para a proteção da costa e para a reprodução de diversas espécies.
A Área de Proteção Ambiental das Reentrâncias Maranhenses abrange municípios do litoral e está associada a uma das maiores extensões contínuas de manguezais do mundo. O cenário é especialmente interessante para quem busca turismo de natureza, observação de aves e experiências ligadas a comunidades costeiras. (gov.br)
Como as condições ambientais variam conforme as marés e as chuvas, os passeios devem ser feitos com operadores que conheçam a região. O uso de protetor solar, repelente, chapéu, água potável e roupas leves costuma ser útil, mas os itens necessários podem mudar de acordo com a atividade escolhida.
Como montar um roteiro pelo Maranhão
Para conhecer o Maranhão além dos Lençóis, o primeiro passo é escolher uma região principal e acrescentar destinos próximos. São Luís pode ser combinada com Alcântara e municípios da ilha. Os Lençóis podem ser associados ao Delta das Américas. Já a Chapada das Mesas merece uma programação própria, devido às distâncias e ao perfil dos passeios.
Também é importante evitar um roteiro excessivamente apertado. O estado tem grandes distâncias, trechos de estrada, deslocamentos fluviais e atrações que dependem de horário, maré ou condições climáticas. Reservar dias extras ajuda a reduzir o risco de perder passeios por causa de atrasos ou mudanças no tempo.
- Consulte os canais oficiais de turismo e das unidades de conservação antes de viajar.
- Confirme horários de barcos, valores, formas de pagamento e necessidade de reserva.
- Prefira guias e empresas regularizadas, especialmente em trilhas, rios e áreas protegidas.
- Leve dinheiro ou alternativas de pagamento quando visitar comunidades e locais mais afastados.
- Respeite regras ambientais, patrimônios históricos e espaços religiosos.
- Evite retirar conchas, plantas, pedras ou qualquer elemento das áreas naturais.
Mais do que ampliar a lista de atrações, conhecer o Maranhão por diferentes regiões permite entender como natureza, história e cultura se relacionam. São Luís mostra a formação urbana e colonial; Alcântara preserva memórias de outros ciclos; o bumba meu boi revela a força das comunidades; a Chapada das Mesas apresenta o Cerrado; e o Delta das Américas expõe a dinâmica dos rios e manguezais.








