quarta-feira, 4 de novembro de 2026
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Babaçu no Maranhão: como o fruto sustenta comunidades e movimenta a economia

O babaçu faz parte da economia, da alimentação e da cultura de comunidades maranhenses. Entenda como funciona o extrativismo, quais produtos são gerados e por que as quebradeiras de coco defendem o acesso aos babaçuais.

O babaçu no Maranhão está presente na alimentação, na geração de renda, no trabalho comunitário e na preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações. A palmeira, encontrada em grande parte do estado, fornece matéria-prima para alimentos, óleo, farinha, carvão, sabão, cosméticos e artesanato.

O extrativismo é realizado principalmente pelas quebradeiras de coco babaçu, mulheres que coletam os frutos caídos, fazem a quebra manual e aproveitam diferentes partes do coco. A atividade integra a economia de comunidades rurais, quilombolas e agroextrativistas, especialmente em áreas como o Médio Mearim e o Vale do Pindaré.

Dados do IBGE mostram que o Maranhão registrou, em 2024, produção de 21.542 toneladas de babaçu, com valor de produção de R$ 60,276 milhões. O levantamento considera a produção extrativa registrada oficialmente e ajuda a dimensionar a importância econômica do fruto no estado.

O que é o babaçu

O babaçu é uma palmeira nativa do Brasil, conhecida cientificamente como Attalea speciosa. A planta ocorre principalmente em áreas de transição entre a Amazônia, o Cerrado e o Nordeste, formando extensos babaçuais.

A palmeira produz cachos com frutos de casca rígida. Dentro do coco ficam as amêndoas, geralmente utilizadas para a extração de óleo. O mesocarpo, uma camada intermediária do fruto, pode ser transformado em farinha. A casca e o endocarpo também têm usos econômicos e domésticos.

O ciclo da palmeira ajuda a explicar sua presença no cotidiano rural. Os cocos maduros caem naturalmente no solo, onde são recolhidos pelas extrativistas. Dessa forma, a coleta aproveita o fruto sem a necessidade de derrubar a árvore, prática que contribui para a permanência dos babaçuais.

Como funciona o trabalho das quebradeiras de coco

O trabalho começa com a coleta dos cocos em áreas de ocorrência da palmeira. Depois, as mulheres selecionam os frutos e realizam a quebra, tradicionalmente com o uso de um machado apoiado no chão ou em uma base de madeira.

A atividade exige força, atenção e experiência. A quebradeira posiciona o coco sobre a lâmina e utiliza um pedaço de madeira para golpeá-lo. O objetivo é retirar as amêndoas sem desperdiçar as partes que podem ser aproveitadas em outras etapas.

O conhecimento sobre o ponto de corte, a escolha dos frutos e o processamento é transmitido dentro das famílias e das comunidades. Por isso, o ofício reúne uma dimensão econômica e outra cultural. Em junho de 2026, a Lei nº 15.431 reconheceu como manifestação da cultura nacional o ofício das quebradeiras de coco babaçu nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará.

Quais produtos podem ser feitos com o babaçu

O aproveitamento do babaçu vai além da venda das amêndoas. A cadeia produtiva envolve vários produtos, o que permite às famílias diversificar a renda e reduzir o desperdício do fruto.

  • Óleo e azeite: produzidos a partir das amêndoas e utilizados na alimentação, em cosméticos e em outras atividades industriais.
  • Farinha do mesocarpo: empregada em preparações alimentares, como bolos, pães, mingaus e outros produtos.
  • Alimentos processados: cooperativas e grupos comunitários desenvolvem sorvetes, doces, biscoitos, brownies e outros itens com ingredientes derivados do babaçu.
  • Sabão e cosméticos: o óleo pode ser utilizado na fabricação de sabonetes, cremes e produtos de higiene.
  • Carvão: a casca e outras partes do fruto podem ser transformadas em carvão, de acordo com práticas locais de beneficiamento.
  • Artesanato: folhas, fibras, sementes e outras partes da palmeira são usadas em objetos decorativos e utilitários.

O Ministério das Mulheres destaca que a coleta, a quebra e o beneficiamento permitem o uso de diferentes partes da palmeira e do fruto. Essa diversidade fortalece a economia das comunidades e amplia as possibilidades de comercialização.

Importância para a economia das comunidades

Em muitas localidades, o babaçu funciona como uma fonte complementar ou principal de renda. A atividade pode ser combinada com agricultura familiar, criação de pequenos animais, pesca e outras formas de trabalho rural.

O estudo A economia invisível do babaçu, publicado pela Embrapa, analisou 200 comunidades agroextrativistas no vale do rio Mearim. A pesquisa apontou que o valor econômico dos derivados do babaçu pode ser muito maior do que aquele registrado apenas pela comercialização das amêndoas.

Esse aspecto é importante porque parte da produção é destinada ao consumo das próprias famílias ou circula em mercados locais, feiras, associações e redes comunitárias. Quando esses produtos não entram nas estatísticas convencionais, a dimensão real da atividade fica subestimada.

O beneficiamento também pode aumentar o valor recebido pelas famílias. Em vez de vender somente o coco ou a amêndoa, grupos organizados conseguem transformar a matéria-prima em alimentos, óleos e produtos com maior valor agregado.

O papel das mulheres na cadeia do babaçu

As quebradeiras de coco ocupam posição central na cadeia produtiva. Elas participam da coleta, da quebra, do processamento, da organização comunitária e da comercialização. Em muitos casos, também atuam na defesa do território e na formulação de políticas públicas voltadas ao agroextrativismo.

A organização coletiva surgiu como resposta a dificuldades como a restrição de acesso às áreas de coleta, a baixa remuneração pelas amêndoas, a falta de equipamentos e os obstáculos para transportar e vender a produção.

Cooperativas, associações e movimentos de mulheres ajudam a negociar preços, acessar projetos, melhorar o beneficiamento e apresentar os produtos diretamente aos consumidores. O BNDES informa que um projeto apoiado no Vale do Pindaré atende mais de 500 famílias agroextrativistas em 16 comunidades de nove municípios, com foco na inclusão socioprodutiva e no fortalecimento de negócios comunitários.

Babaçu e preservação ambiental

A economia do babaçu depende da conservação das palmeiras. Como a coleta tradicional utiliza principalmente os frutos que caem no chão, a atividade pode ser conciliada com a manutenção dos babaçuais em pé.

Essa relação não elimina os desafios ambientais. Desmatamento, queimadas, substituição da vegetação nativa e dificuldade de acesso às áreas de coleta reduzem a disponibilidade do recurso e afetam diretamente as comunidades.

Para as famílias extrativistas, preservar o babaçual significa manter uma fonte de alimento, combustível, matéria-prima e renda. Por isso, a defesa do acesso aos frutos está ligada à proteção dos territórios e à continuidade dos modos de vida tradicionais.

O que significa a Lei do Babaçu Livre

Em diferentes municípios maranhenses, leis conhecidas como Leis do Babaçu Livre estabelecem regras para proteger o acesso das quebradeiras aos frutos e evitar a derrubada indiscriminada das palmeiras. A aplicação, o alcance e os procedimentos variam conforme a legislação de cada município.

Na prática, essas normas estão relacionadas ao direito de uso das áreas de ocorrência do babaçu e à proteção das palmeiras. Como a existência da legislação municipal não significa que todos os conflitos estejam resolvidos, as comunidades continuam recorrendo à organização coletiva e ao diálogo com órgãos públicos.

Quem precisar verificar a regra aplicável em determinado município deve consultar a prefeitura, a câmara municipal ou os órgãos estaduais responsáveis pela agricultura familiar e pelo meio ambiente. É importante conferir o texto atualizado da legislação local antes de tomar qualquer decisão.

Novas formas de beneficiamento e comercialização

Uma das principais dificuldades da cadeia do babaçu é transformar a produção extrativa em renda estável. Para isso, são necessários equipamentos, armazenamento adequado, transporte, capacitação, regularização dos produtos e acesso a mercados.

Em março de 2026, uma agroindústria foi inaugurada no quilombo Boa Vista, em Rosário, para atender quebradeiras de coco da Associação Quilombola de Boa Vista e do grupo Sabor e Arte. Segundo o Governo do Maranhão, a estrutura foi equipada para produzir e beneficiar derivados do mesocarpo do babaçu, inclusive itens de panificação.

Também em 2026, a Codevasf informou o lançamento da Rota do Babaçu, em Cantanhede, como parte das Rotas de Integração Nacional. A iniciativa tem o objetivo de estruturar e modernizar a cadeia produtiva no estado, incluindo ações de organização e beneficiamento.

Essas iniciativas mostram que o futuro da atividade não depende apenas do aumento da coleta. Também exige melhorias na etapa posterior, para que as comunidades possam processar, embalar, transportar e vender seus produtos em condições mais favoráveis.

Como consumidores podem valorizar a cadeia

Consumidores interessados em apoiar as comunidades podem priorizar produtos identificados como derivados do babaçu e, quando possível, comprar diretamente de associações, cooperativas, feiras da agricultura familiar e empreendedoras comunitárias.

Também é recomendável observar informações sobre origem, composição, validade, conservação e registro sanitário quando se tratar de alimento ou cosmético. O produto artesanal pode ter regras específicas, e a ausência de informações básicas dificulta a avaliação de qualidade e segurança.

Outra forma de valorização é reconhecer o trabalho envolvido na produção. O preço final precisa considerar o tempo de coleta, a quebra manual, o processamento, a embalagem e a comercialização. A compra responsável contribui para que a renda permaneça nas comunidades e para que o conhecimento tradicional continue sendo transmitido.

Por que o babaçu continua importante no Maranhão

O babaçu reúne economia, alimentação, cultura e conservação ambiental. Para milhares de pessoas, especialmente mulheres quebradeiras de coco, o fruto representa uma possibilidade concreta de renda e permanência no território.

Ao mesmo tempo, a cadeia enfrenta problemas históricos, como baixa remuneração, falta de infraestrutura, acesso limitado às áreas de coleta e dificuldade de inserção em mercados maiores. O fortalecimento da atividade depende de políticas públicas, organização comunitária, proteção dos babaçuais e reconhecimento do trabalho das extrativistas.

Assim, falar sobre o babaçu no Maranhão é falar de uma cadeia que começa na palmeira e chega à mesa, às feiras, às agroindústrias e aos mercados. Seu valor não está apenas na quantidade de cocos coletados, mas também nos conhecimentos, nos produtos e nas relações comunitárias construídas em torno do fruto.

Fontes consultadas

As informações sobre produção e valor econômico foram verificadas em dados do IBGE. Os dados sobre comunidades agroextrativistas foram consultados em publicação da Embrapa. Informações sobre o ofício das quebradeiras e o aproveitamento do babaçu foram conferidas em conteúdo do Ministério das Mulheres.