Os sotaques do bumba meu boi maranhense representam diferentes maneiras de brincar, cantar, tocar e dançar no Maranhão. A classificação mais conhecida reúne os estilos de matraca, baixada, zabumba, orquestra e costa de mão.
Na prática, cada sotaque tem uma combinação própria de instrumentos, ritmo, coreografia, personagens, indumentárias e formas de organização do grupo. Por isso, conhecer os sotaques ajuda a entender a diversidade de uma das manifestações culturais mais importantes do estado.
O bumba meu boi maranhense foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2011. Em 2019, o Complexo Cultural do Bumba meu boi do Maranhão recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
O que significa “sotaque” no bumba meu boi
No bumba meu boi, a palavra “sotaque” não se refere à forma de falar de uma pessoa. O termo identifica o modo particular como um grupo realiza a brincadeira.
Essa diferença pode ser percebida na escolha dos instrumentos, na cadência das toadas, no desenho das coreografias, na movimentação dos brincantes e nos bordados das roupas. Também aparece na presença de determinados personagens e na relação do grupo com a comunidade de origem.
Os cinco sotaques mais conhecidos são uma forma de organizar a variedade do bumba meu boi maranhense. A divisão, porém, não representa todas as formas existentes no estado nem corresponde sempre a fronteiras geográficas rígidas. Há grupos com características próprias e influências cruzadas entre diferentes estilos.
Sotaque de matraca
O sotaque de matraca é um dos mais conhecidos do Maranhão e tem forte presença nos festejos de São João, especialmente em São Luís e em comunidades da ilha e de outras áreas do estado.
Seu nome vem das matracas, peças de madeira percutidas pelos brincantes. O som seco e marcado desses instrumentos costuma formar uma base rítmica intensa, acompanhada por pandeirões e outros tambores.
As matracas podem ser tocadas por grande quantidade de pessoas, o que produz uma sonoridade coletiva e facilmente reconhecível. Durante a apresentação, o conjunto de instrumentos ajuda a conduzir as toadas, os deslocamentos e os movimentos do grupo.
Entre os personagens associados ao sotaque de matraca estão os caboclos de pena, também conhecidos como caboclos reais. Eles usam grandes cocares e peças coloridas, que se destacam pelo volume e pelo movimento durante a dança.
A indumentária é um dos elementos mais marcantes desse estilo. Os brincantes costumam usar roupas bordadas e coloridas, com destaque para os adereços de cabeça, os saiotes e os peitorais. O resultado é uma apresentação visualmente ampla, com muitos participantes reunidos em torno do boi.
Sotaque da baixada
O sotaque da baixada está ligado à Baixada Maranhense, embora também seja praticado por grupos de outras localidades. É conhecido pela presença de pandeiros menores, tambores e matracas, além de uma movimentação geralmente mais cadenciada e marcada.
Os pandeiros têm papel importante na sonoridade da baixada. O ritmo é formado pela combinação da percussão com as toadas e pelo movimento dos brincantes, que se organizam ao redor do boi e dos personagens.
Um dos personagens mais associados a esse sotaque é o cazumbá, também chamado de cazumba. Ele usa bata comprida, máscara ou careta e chocalhos, criando uma presença irreverente e expressiva na brincadeira.
O cazumbá pode representar uma figura híbrida, entre o humano e o animal, e sua atuação combina dança, humor e interação com o público. A máscara e os adereços são elementos importantes para a construção visual do personagem.
O sotaque da baixada também é lembrado pela força das toadas e pela atuação dos amos, responsáveis por cantar e conduzir diferentes momentos da apresentação. Os grupos podem valorizar narrativas, homenagens, temas religiosos e referências às comunidades de origem.
Sotaque de zabumba
O sotaque de zabumba é marcado pela presença dos tambores que dão nome ao estilo. A zabumba produz uma sonoridade grave e pulsante, responsável por sustentar o ritmo das apresentações.
O estilo é associado a tradições de matriz africana e costuma apresentar andamento mais pausado em determinados momentos, alternando cadências conforme a evolução da brincadeira. A percussão ocupa posição central, e o conjunto pode incluir pandeiros, maracás e outros instrumentos.
As roupas dos brincantes são coloridas e bordadas, mas apresentam características próprias de acordo com cada grupo. O visual se combina com uma dança marcada pelo balanço dos corpos e pela relação próxima entre os músicos e os personagens.
O sotaque de zabumba é tradicionalmente relacionado a comunidades de São Luís e de outras regiões do Maranhão. A origem e a continuidade desse estilo estão ligadas à transmissão de conhecimentos entre gerações, dentro das famílias e das comunidades.
Como ocorre com os demais sotaques, não existe uma apresentação totalmente igual à outra. Os grupos podem preservar elementos antigos, incorporar soluções novas e desenvolver formas particulares de tocar, cantar e organizar a entrada dos personagens.
Sotaque de orquestra
O sotaque de orquestra se diferencia pelo uso de instrumentos de sopro e de cordas, além da percussão. Dependendo do grupo, podem aparecer instrumentos como saxofone, clarinete, trompete, banjo e outros componentes de banda.
Essa combinação amplia a sonoridade das toadas e cria um ritmo que pode ser mais próximo de formações musicais com instrumentos melódicos. O resultado é uma apresentação com forte presença de melodias, arranjos e variações de andamento.
O sotaque de orquestra é associado a municípios da região do Munim e a diferentes cidades do interior maranhense, mas também tem ampla presença em São Luís. Entre os grupos podem existir diferenças importantes de repertório, coreografia e figurino.
Os brincantes usam roupas bordadas, chapéus, saiotes e outros adereços. A composição visual costuma acompanhar a organização do grupo e pode destacar vaqueiros, índias, índios, caboclos e demais personagens da brincadeira.
Para quem assiste a uma apresentação, a principal forma de reconhecer o sotaque de orquestra é observar a presença dos instrumentos de sopro e de cordas. Eles dividem o protagonismo com os tambores e ajudam a conduzir as toadas.
Sotaque de costa de mão
O sotaque de costa de mão tem como principal característica a maneira de tocar os pandeiros. Em vez de usar a palma ou a ponta dos dedos como em outras formas de percussão, os brincantes utilizam o dorso da mão, também chamado de costa da mão.
O estilo surgiu em regiões com população majoritariamente negra e está relacionado a comunidades quilombolas. O município de Cururupu é uma das referências desse sotaque, que também está presente em Bacuri, Serrano do Maranhão e São Luís.
O som dos pandeiros tocados com a costa da mão ajuda a criar uma identidade rítmica própria. A técnica exige domínio do instrumento e é transmitida por meio da prática, da convivência e da participação nas atividades do grupo.
O Iphan destaca que o sotaque de costa de mão reúne um número reduzido de grupos no estado, o que reforça a importância das ações de salvaguarda, formação e transmissão dos conhecimentos relacionados à brincadeira.
Além da percussão, o sotaque se expressa nos bordados, nos movimentos dos brincantes, nas toadas e na forma de organizar a apresentação. Cada grupo pode preservar características particulares, mesmo quando compartilha elementos comuns com outros bois.
Como diferenciar os sotaques durante uma apresentação
Para identificar um sotaque, o primeiro passo é prestar atenção aos instrumentos. As matracas aparecem com destaque no sotaque de matraca; os pandeiros e o cazumbá ajudam a reconhecer a baixada; as zabumbas são centrais no sotaque de zabumba; os instrumentos de sopro e cordas indicam a orquestra; e a técnica de tocar o pandeiro com o dorso da mão caracteriza a costa de mão.
Também é importante observar o ritmo. As toadas podem ter cadências mais aceleradas, pausadas ou variadas, conforme o estilo e a escolha do grupo. A forma de dançar, a disposição dos brincantes e a presença de personagens específicos completam a identificação.
O figurino oferece outra pista. Cocares, máscaras, batas, peitorais bordados, saiotes e adereços podem mudar bastante entre os grupos. Essas roupas não servem apenas para ornamentar a apresentação: elas carregam referências culturais, memórias e técnicas de artesanato.
Mesmo com essas diferenças, os sotaques compartilham elementos fundamentais. Entre eles estão as toadas, os músicos, os brincantes, o boi, os personagens e a dimensão religiosa e festiva do ciclo junino.
O ciclo do bumba meu boi
O bumba meu boi maranhense se organiza em torno de um ciclo anual. O batismo simboliza o nascimento do boi e marca o início de uma nova temporada da brincadeira. Depois vêm as apresentações públicas, realizadas em arraiais, comunidades, terreiros e outros espaços de celebração.
O ciclo também inclui a morte do boi, etapa que encerra simbolicamente o período de apresentações e prepara a retomada da tradição no ano seguinte. As datas e os formatos podem variar conforme o grupo e a localidade.
A brincadeira reúne música, dança, teatro, religiosidade, artesanato e participação comunitária. Por isso, não deve ser entendida apenas como um espetáculo musical. Ela envolve saberes transmitidos entre gerações e diferentes formas de participação social.
Onde conhecer os sotaques do bumba meu boi
Os festejos juninos são o principal período para assistir às apresentações, especialmente em arraiais de São Luís e de outras cidades do Maranhão. Também podem ocorrer apresentações em eventos culturais, programações comunitárias, rodas de boi e atividades de valorização do patrimônio.
Quem pretende conhecer os sotaques deve consultar a programação oficial dos órgãos de cultura e turismo do Maranhão, das prefeituras e dos próprios grupos. A agenda muda a cada ano, e os locais de apresentação podem ser diferentes em cada temporada.
O Iphan reúne informações sobre o reconhecimento e as ações de preservação do bumba meu boi. Já a Secretaria de Estado do Turismo do Maranhão divulga conteúdos sobre manifestações culturais e períodos de maior concentração das apresentações.
Por que os sotaques são importantes
Os sotaques mostram que o bumba meu boi maranhense não é uma manifestação única e uniforme. Ele reúne diferentes comunidades, trajetórias históricas e maneiras de expressar fé, memória, criatividade e pertencimento.
Conhecer essa diversidade também ajuda a valorizar os mestres, músicos, artesãos, brincantes e grupos responsáveis pela continuidade da tradição. Cada apresentação preserva conhecimentos próprios e, ao mesmo tempo, mantém viva uma manifestação que se transforma sem perder suas referências fundamentais.
Ao ouvir uma toada, observar os instrumentos e acompanhar a dança, o público pode perceber que matraca, baixada, zabumba, orquestra e costa de mão são diferentes caminhos para celebrar o mesmo universo cultural: o bumba meu boi do Maranhão.





