O cacuriá no Maranhão reúne dança, música, versos e participação coletiva em uma das manifestações mais conhecidas da cultura popular do estado. A brincadeira costuma aparecer em festas juninas, eventos culturais e celebrações relacionadas ao Divino Espírito Santo, levando ao público um ritmo marcado pelas caixas de percussão, pelos movimentos em pares e pelo humor das cantigas.
Para quem visita o Maranhão ou deseja conhecer melhor as tradições maranhenses, assistir a uma apresentação de cacuriá é uma forma de entrar em contato com uma expressão cultural que combina religiosidade popular, convivência comunitária e diversão. As apresentações podem ocorrer em arraiais, praças, centros culturais, escolas, festivais e programações organizadas por municípios e instituições culturais.
O que é o cacuriá
O cacuriá é uma dança popular maranhense geralmente apresentada em roda ou em formação coletiva. Os brincantes dançam aos pares, acompanhando o ritmo das caixas e respondendo aos versos cantados pelo grupo. A coreografia tem movimentos marcados, giros, aproximações entre os dançarinos e gestos de forte expressividade corporal.
A manifestação é associada à parte profana dos festejos do Divino Espírito Santo. No Maranhão, a celebração do Divino reúne ritos religiosos, procissões, rezas, levantamento e derrubada do mastro, participação das caixeiras e momentos de confraternização. Depois das atividades religiosas, as caixas e os cantos também podem acompanhar momentos de dança e descontração.
Por isso, o cacuriá não deve ser compreendido apenas como uma apresentação de palco. A brincadeira envolve música, dança, memória, improviso e interação entre os participantes. Em muitas ocasiões, o público acompanha os refrãos, bate palmas e observa a troca de pares e os movimentos dos dançarinos.
Como surgiu a dança
A história do cacuriá está relacionada aos festejos do Divino Espírito Santo no Maranhão. Registros culturais e estudos sobre a manifestação apontam que a dança ganhou forma no início da década de 1970, a partir de práticas realizadas pelas caixeiras após o encerramento das cerimônias do Divino.
O folclorista Alauriano Campos de Almeida, conhecido como Seu Lauro, é tradicionalmente citado como um dos responsáveis pela organização e pela divulgação do cacuriá em apresentações públicas. A manifestação teria sido estruturada a partir de brincadeiras com caixas, cantos e danças que já faziam parte do ambiente das festas do Divino.
Pesquisas sobre a tradição também registram diferentes interpretações a respeito de sua origem geográfica e de seu processo de formação. Algumas referências relacionam o cacuriá a localidades do interior maranhense, enquanto outras destacam a consolidação da dança em São Luís, onde grupos passaram a apresentá-la em eventos públicos e festejos populares.
Essa diversidade de versões faz parte da própria trajetória de uma manifestação transmitida pela prática e pela memória de comunidades, mestres e brincantes. O ponto comum entre os registros é a ligação do cacuriá com as caixas do Divino e com a expansão da dança durante os festejos maranhenses a partir da década de 1970.
Qual é a importância das Caixas do Divino
As caixas do Divino são os principais instrumentos associados ao cacuriá. Trata-se de tambores utilizados pelas caixeiras, mulheres que desempenham papel importante nas celebrações do Divino Espírito Santo. A batida das caixas conduz os passos, sustenta o canto e ajuda a organizar o andamento da brincadeira.
Nas apresentações tradicionais, as caixeiras formam a base percussiva e participam dos cantos. A música pode ser conduzida por versos entoados por uma pessoa ou por um grupo, com respostas do coro de brincantes. Esse formato de pergunta e resposta aproxima o cacuriá de outras tradições de canto coletivo presentes na cultura popular brasileira.
Além de marcar o ritmo, as caixas carregam uma dimensão simbólica. Elas remetem à tradição do Divino e à participação das mulheres na preservação, na transmissão e na realização dos festejos. Em uma apresentação de cacuriá, a percussão não é apenas acompanhamento: ela organiza a dança e ajuda a manter viva a relação entre a manifestação popular e a religiosidade maranhense.
Música, versos e improviso
As músicas do cacuriá são conhecidas pelo ritmo animado e pelas letras que recorrem ao humor, à observação do cotidiano, à malícia e à sabedoria popular. Os versos podem variar conforme o grupo, a ocasião e a criatividade dos cantadores.
O improviso é um dos elementos que tornam cada apresentação diferente. O cantador pode criar ou adaptar versos de acordo com o público, o lugar e o momento da festa. Em resposta, os brincantes e o coro repetem refrãos ou acompanham a condução musical.
Essa dinâmica exige atenção de quem participa. O cacuriá é aprendido principalmente pela observação, pela repetição e pela convivência com os grupos. Não é necessário conhecer todos os versos para assistir a uma apresentação, mas o público pode acompanhar palmas e refrãos quando os próprios brincantes indicam a participação.
Como é a dança do cacuriá
A dança costuma ser realizada em pares, com deslocamentos ritmados, giros e movimentos coordenados. Os brincantes podem formar rodas, fileiras ou outras composições, dependendo do grupo e do espaço disponível. As coreografias valorizam a interação entre os participantes e a movimentação coletiva.
Alguns gestos têm caráter provocativo ou sensual, mas aparecem dentro da linguagem festiva da manifestação. Essa característica deve ser entendida no contexto da brincadeira, sem retirar dos participantes o direito de estabelecer limites e preservar o respeito durante a dança.
Quem deseja aprender pode começar observando uma apresentação e acompanhando os passos mais simples. Em oficinas, ensaios comunitários e atividades escolares, os grupos costumam ensinar movimentos básicos, noções de ritmo e formas de participação. Como cada coletivo pode apresentar estilo próprio, é normal encontrar diferenças na coreografia, no figurino e na condução dos versos.
Figurinos e identidade visual
Os figurinos variam de acordo com o grupo, mas geralmente incluem roupas coloridas e saias rodadas para as dançarinas. As peças ajudam a destacar os giros e os movimentos da coreografia. Alguns grupos também utilizam adornos, fitas, acessórios e combinações de cores relacionadas à identidade da formação.
Não existe um único modelo obrigatório para todas as apresentações. O vestuário pode mudar conforme o tipo de evento, o orçamento do grupo, a proposta artística e a tradição mantida por cada coletivo. Em apresentações comunitárias, os figurinos podem ser mais simples; em festivais e programações oficiais, podem receber maior elaboração visual.
Onde o cacuriá aparece nas festas populares
O cacuriá pode ser encontrado principalmente nas programações juninas do Maranhão, ao lado de manifestações como o bumba meu boi, o tambor de crioula, as quadrilhas, a dança do lelê e a dança do caroço. A presença da brincadeira é comum em arraiais, festivais de cultura popular e eventos voltados à valorização das tradições do estado.
São Luís é uma das principais referências de divulgação do cacuriá, mas a manifestação também está presente em municípios do interior maranhense. A programação muda a cada ano e depende da organização de governos municipais, órgãos estaduais, grupos culturais, associações comunitárias e produtores de eventos.
Para encontrar apresentações, o visitante deve consultar previamente os calendários oficiais de cultura e turismo do município que pretende visitar. Também é importante verificar as redes oficiais dos grupos culturais e dos organizadores, pois horários, locais e atrações podem ser alterados. Quando a programação não estiver publicada, a informação mais segura é buscar confirmação diretamente nos canais institucionais responsáveis pelo evento.
Como assistir a uma apresentação
Em geral, as apresentações de cacuriá são abertas ao público quando fazem parte de festas populares e eventos culturais. Ainda assim, as condições de acesso podem variar. Algumas atividades são gratuitas, enquanto outras podem integrar programações com regras específicas de entrada, controle de público ou inscrição prévia.
Antes de sair de casa, confira o horário previsto, o local, a duração da programação e as orientações do organizador. Em eventos ao ar livre, é recomendável usar roupas confortáveis, levar água e considerar as condições climáticas. Também vale chegar com antecedência, sobretudo quando a apresentação ocorre em um arraial com grande circulação de pessoas.
Durante a apresentação, o público deve respeitar o espaço dos brincantes e evitar atravessar a área da dança. Fotografias e vídeos podem ser feitos quando permitidos, mas é importante não interromper a atividade nem utilizar equipamentos que prejudiquem a visão de quem está acompanhando. Em oficinas ou rodas abertas, a entrada deve ocorrer somente quando os organizadores convidarem os espectadores.
É possível aprender cacuriá?
Sim. O cacuriá pode ser aprendido em oficinas culturais, ensaios de grupos, atividades de educação patrimonial e ações promovidas por escolas, centros culturais e instituições públicas. A disponibilidade dessas atividades varia conforme o município e o calendário de cada coletivo.
O aprendizado envolve mais do que memorizar passos. Os participantes também entram em contato com o ritmo das caixas, os versos, a organização da roda, o significado das festas do Divino e a história dos mestres responsáveis pela difusão da dança. Por isso, oficinas conduzidas por grupos tradicionais ou por pessoas com experiência na manifestação são uma forma adequada de conhecer o cacuriá.
Quem pretende participar deve perguntar sobre faixa etária, duração, necessidade de inscrição, roupas recomendadas e autorização para menores de idade. Essas informações precisam ser confirmadas com cada organizador, porque não há um procedimento único para todas as oficinas.
O legado de Dona Teté
Entre as figuras mais conhecidas do cacuriá está Almerice da Silva Santos, a Dona Teté. Caixeira, brincante e cantora, ela ajudou a difundir a manifestação a partir da criação do Cacuriá de Dona Teté, grupo formado em 1986 com apoio do Laborarte.
O grupo se tornou uma das principais referências do cacuriá dentro e fora do Maranhão. A atuação de Dona Teté contribuiu para ampliar a visibilidade da dança, formar novos brincantes e mostrar que a tradição poderia circular em palcos, escolas, festivais e diferentes espaços culturais sem perder a ligação com a cultura popular maranhense.
O legado do grupo também reforça a importância da transmissão entre gerações. Crianças, jovens e adultos podem aprender a dança em contato com mestres, músicos e integrantes de coletivos culturais que mantêm a prática ativa.
Por que conhecer o cacuriá
Conhecer o cacuriá é uma oportunidade de compreender parte da formação cultural do Maranhão a partir da música, da dança e da memória comunitária. A manifestação revela como festas religiosas e celebrações populares podem produzir novas formas de convivência e expressão artística.
Para o visitante, assistir a uma apresentação permite observar a diversidade das festas maranhenses além dos ritmos mais conhecidos. Para quem vive no estado, acompanhar grupos e oficinas é também uma maneira de apoiar mestres, músicos, dançarinos e comunidades responsáveis pela continuidade da tradição.
O cacuriá permanece vivo porque é praticado, ensinado e recriado. Suas apresentações podem mudar de acordo com o grupo e o espaço, mas mantêm elementos centrais: o som das caixas, a força dos versos, a dança em pares e a alegria compartilhada nas festas populares do Maranhão.





