quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Dia a Dia

Estação seca no Maranhão: como comunidades rurais podem se preparar

A estação seca no Maranhão exige mudanças na rotina de comunidades rurais. Veja como organizar o uso da água, proteger lavouras e animais, evitar queimadas e acompanhar orientações oficiais.

A estação seca no Maranhão modifica a rotina de comunidades rurais e exige planejamento para reduzir os impactos sobre o abastecimento, a produção agrícola, a criação de animais e a saúde das famílias. Com a redução das chuvas, tarefas que já fazem parte do dia a dia, como buscar água, irrigar os canteiros e manter o gado hidratado, podem consumir mais tempo e exigir maior organização.

O período seco não ocorre da mesma forma em todas as regiões do estado. A duração e a intensidade da estiagem variam conforme a localização, o tipo de solo, a disponibilidade de rios, poços, açudes e cisternas e o comportamento das chuvas ao longo do ano. Por isso, as comunidades devem acompanhar as condições locais e evitar decisões baseadas apenas em calendários fixos.

Por que a estação seca muda a rotina no campo

A diminuição das chuvas reduz a umidade do solo e pode baixar o nível de reservatórios, riachos e nascentes. Em propriedades que dependem exclusivamente da chuva, o plantio e a colheita precisam ser ajustados, enquanto hortas e pomares passam a exigir irrigação mais frequente ou técnicas de conservação da umidade.

A água também precisa ser dividida entre diferentes usos: consumo das famílias, preparo de alimentos, higiene, dessedentação de animais e atividades produtivas. Quando não há planejamento, o aumento do consumo em uma área pode comprometer o abastecimento em outra.

Em comunidades rurais, a estação seca ainda pode dificultar o deslocamento por estradas de terra, aumentar a poeira e elevar o risco de incêndios em áreas de vegetação seca. A combinação entre vento, altas temperaturas e material vegetal ressecado favorece a propagação rápida do fogo.

Como organizar o uso da água

O primeiro passo é fazer um levantamento simples da água disponível. A comunidade ou a família deve identificar os pontos de abastecimento, estimar quanto tempo cada reservatório pode atender às necessidades e verificar se existem perdas em torneiras, mangueiras, caixas-d’água ou tubulações.

  • Priorize água de qualidade adequada para beber, cozinhar e preparar alimentos.
  • Mantenha caixas, tambores e cisternas tampados para evitar contaminação e a proliferação de mosquitos.
  • Separe, quando possível, a água destinada ao consumo humano daquela usada em animais, limpeza e irrigação.
  • Conserte vazamentos e evite deixar mangueiras abertas durante o abastecimento.
  • Registre o nível dos reservatórios para perceber com antecedência quando será necessário buscar apoio ou reduzir o consumo.

Água de origem duvidosa não deve ser consumida sem tratamento adequado. Fervura, filtração e desinfecção podem ser recomendadas conforme a origem da água e as orientações dos serviços de saúde. Em caso de dúvida sobre a qualidade, a família deve procurar a unidade básica de saúde ou a secretaria municipal responsável pelo abastecimento e pela vigilância sanitária.

Medidas de armazenamento também ajudam a atravessar os períodos de menor oferta. Em fevereiro de 2026, a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária informou a implantação de 1.830 cisternas para ampliar o acesso à água em comunidades rurais do Maranhão. A Codevasf também divulgou sistemas de abastecimento movidos a energia solar em localidades do estado, com uso para consumo humano, animais e produção agrícola. (sagrima.ma.gov.br)

Cuidados com hortas, lavouras e pomares

Durante a estação seca, a irrigação deve ser planejada para reduzir desperdícios. Regar nos horários mais quentes favorece a evaporação. Sempre que possível, a aplicação de água deve ocorrer no início da manhã ou no fim da tarde, quando a perda para o ambiente tende a ser menor.

A cobertura do solo com palha, folhas secas ou outros materiais orgânicos pode ajudar a conservar a umidade e diminuir o aquecimento da terra. A prática deve ser feita sem bloquear completamente a base das plantas e sem utilizar resíduos contaminados ou materiais que possam atrair pragas.

Também é importante priorizar as culturas mais sensíveis e os canteiros destinados à alimentação das famílias. Em períodos de pouca água, o produtor pode reduzir temporariamente a área plantada, escolher variedades adaptadas às condições locais e organizar o cultivo de acordo com a disponibilidade do reservatório.

O uso de sistemas de irrigação precisa considerar a capacidade da fonte de água. Kits de irrigação e equipamentos de baixo consumo podem ajudar, mas devem ser instalados e manejados de acordo com a realidade da propriedade. Em 2025, a Codevasf informou que cerca de 700 famílias maranhenses haviam sido beneficiadas com kits de irrigação em diferentes municípios. (gov.br)

Proteção dos animais no período seco

A criação de animais também exige ajustes. Bebedouros devem ser abastecidos com frequência e instalados, quando possível, em locais protegidos do sol direto. A água precisa ser observada regularmente para evitar sujeira, mau cheiro ou contaminação por fezes, ração e outros resíduos.

O produtor deve acompanhar a oferta de pasto e evitar a concentração excessiva de animais em áreas já degradadas. Quando a vegetação diminui, é necessário planejar a alimentação complementar de acordo com os recursos disponíveis e buscar orientação técnica para evitar perda de peso, queda na produção de leite ou aumento da vulnerabilidade a doenças.

Os animais também precisam de sombra e abrigo contra o calor. Sinais como apatia, respiração acelerada, dificuldade para caminhar e recusa de água podem indicar sofrimento relacionado às altas temperaturas. Nessas situações, a recomendação é buscar atendimento veterinário ou orientação de um serviço de assistência técnica.

Queimadas exigem atenção redobrada

O solo e a vegetação mais secos aumentam o risco de incêndios acidentais e dificultam o controle das chamas. A queima de lixo, folhas, restos de roça ou pastagem pode sair do controle, especialmente quando há vento.

A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais informa que a queima controlada é regulamentada no Maranhão e depende de autorização e de condições específicas. A orientação não é iniciar o fogo sem consultar previamente o órgão ambiental competente. A SEMA também informa que a queima para renovação de pastagens não é autorizada pela regra estadual citada em seu material de orientação. (sema.ma.gov.br)

Antes de qualquer atividade que envolva fogo, o responsável deve verificar as normas vigentes, a necessidade de autorização, as condições climáticas e a existência de aceiros. Mesmo quando uma prática for permitida, o fogo não deve ser usado em dias de vento forte, baixa umidade ou calor intenso.

Em caso de incêndio, a comunidade deve afastar pessoas e animais da área de risco, não tentar combater chamas de grandes proporções e acionar o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193. A fumaça pode agravar problemas respiratórios, principalmente em crianças, idosos e pessoas com asma ou outras doenças pulmonares.

Saúde e bem-estar durante a estiagem

A poeira e a fumaça podem irritar olhos, nariz e garganta. Manter os ambientes ventilados, evitar a exposição desnecessária à fumaça e aumentar a atenção com pessoas que apresentam doenças respiratórias são medidas importantes.

Nos dias mais quentes, o trabalho pesado deve ser organizado para os horários de menor calor. O uso de chapéu, roupas leves, protetor solar e pausas regulares ajuda a reduzir o risco de desidratação e mal-estar. A ingestão de água deve ser frequente, sem esperar o aparecimento da sede.

As famílias também devem redobrar os cuidados com alimentos e utensílios quando a água é limitada. As mãos precisam ser lavadas sempre que possível, e alimentos devem ser protegidos de poeira, insetos e contato com superfícies sujas.

Como a comunidade pode se preparar

O planejamento coletivo pode reduzir os efeitos da estação seca. Associações comunitárias, escolas, agentes de saúde e produtores podem organizar um calendário de monitoramento dos reservatórios, identificar famílias mais vulneráveis e definir os contatos para solicitar ajuda em caso de falta de água ou incêndio.

  • Faça reuniões para mapear fontes de água e áreas com maior risco de fogo.
  • Combine regras para o uso comunitário de poços, açudes e cisternas.
  • Mantenha caminhos de acesso desobstruídos para veículos de emergência.
  • Guarde documentos e contatos dos serviços públicos em local protegido.
  • Procure assistência técnica antes de ampliar áreas irrigadas ou modificar sistemas de abastecimento.

O acompanhamento de dados meteorológicos e de mapas de seca também ajuda na tomada de decisões. O Instituto Nacional de Meteorologia mantém informações sobre chuva, temperatura e condições observadas em estações meteorológicas. Já o Monitor de Secas permite acompanhar a evolução da situação de seca em diferentes áreas. (tempo.inmet.gov.br)

Onde buscar orientação

Em caso de dúvida, o morador pode procurar a secretaria municipal de agricultura, meio ambiente ou saúde, a Empresa Maranhense de Assistência Técnica e Extensão Rural, associações de produtores e órgãos estaduais responsáveis pelo meio ambiente e pelos recursos hídricos. Para situações de incêndio, o canal de emergência é o Corpo de Bombeiros.

A estação seca faz parte da dinâmica climática do Maranhão, mas seus efeitos podem ser reduzidos com armazenamento, economia de água, proteção do solo, cuidado com os animais e prevenção de queimadas. Quanto mais cedo a comunidade identificar os riscos e organizar suas ações, menores tendem a ser as perdas durante o período de pouca chuva.