quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Dia a Dia

Cinco costumes do Maranhão que podem surpreender quem chega de fora

Conheça cinco costumes do Maranhão que podem surpreender visitantes: o ciclo do bumba meu boi, o tambor de crioula, o reggae de radiola, o consumo de juçara com farinha e a força das festas religiosas comunitárias.

Quem chega ao Maranhão encontra uma cultura marcada por festas populares, ritmos próprios, religiosidade, culinária e formas coletivas de convivência. Algumas dessas tradições podem causar estranhamento inicial a visitantes de outras regiões do Brasil, especialmente porque não se limitam a apresentações para turistas: fazem parte da rotina e da identidade de muitas comunidades.

Entre os costumes do Maranhão que mais chamam atenção estão a maneira de viver o bumba meu boi, a presença do tambor de crioula, a forma de dançar reggae, o hábito de consumir juçara com farinha e a participação comunitária em festas religiosas. Essas práticas variam de acordo com a cidade, a região e o grupo cultural, mas ajudam a explicar a diversidade do estado.

1. No Maranhão, bumba meu boi é uma tradição para “brincar”, não apenas para assistir

Uma das primeiras diferenças percebidas por quem visita o Maranhão é a relação com o bumba meu boi. Em vez de ser tratado apenas como um espetáculo, o boi é frequentemente chamado de “brincadeira”. O verbo indica participação, pertencimento e envolvimento comunitário.

O bumba meu boi reúne música, dança, teatro, artesanato, devoção religiosa e personagens ligados a uma narrativa tradicional. A história mais conhecida envolve Catirina, Pai Francisco e o boi que precisa ser ressuscitado depois de ser morto para atender ao desejo da personagem. As versões e formas de apresentação podem mudar entre os grupos.

Outro aspecto que surpreende é a existência de diferentes sotaques, nome dado aos estilos rítmicos e às formas de apresentação dos bois. Entre os mais conhecidos estão os sotaques de zabumba, orquestra, Pindaré, costa de mão e matraca. Cada um utiliza instrumentos, figurinos, coreografias e personagens próprios.

O ciclo do bumba meu boi também não começa e termina em uma única apresentação. Segundo o Iphan, a celebração inclui etapas como ensaios, batismo, apresentações públicas e morte do boi. As atividades se concentram nos festejos juninos, mas o trabalho dos grupos costuma ocupar boa parte do ano.

Para quem chega de fora, a principal orientação é observar a apresentação antes de tentar entrar na roda ou tocar nos adereços. O melhor comportamento é respeitar a organização do grupo, seguir as orientações dos responsáveis e perguntar antes de fotografar pessoas, crianças, figurinos ou bastidores.

2. O tambor de crioula combina dança, canto, percussão e devoção

O tambor de crioula é outra manifestação que pode surpreender visitantes. De matriz afro-brasileira, reúne canto, dança circular e percussão. A prática está presente em diferentes municípios do Maranhão, especialmente em rodas realizadas ao ar livre, em praças, festas comunitárias e terreiros.

Os tambores são tradicionalmente feitos com troncos de árvores e couro. A roda costuma ser formada por dançarinas, conhecidas como coureiras, enquanto os tocadores conduzem o ritmo. Um dos momentos mais conhecidos é a umbigada, movimento usado na troca da dançarina que ocupa o centro da roda.

A umbigada pode chamar a atenção de quem não conhece a tradição, mas não deve ser interpretada fora de seu contexto cultural. Ela faz parte da linguagem própria da dança e ocorre conforme a dinâmica da roda. Isso não significa que visitantes devam tocar ou entrar na apresentação sem convite.

O Iphan reconhece o tambor de crioula como Patrimônio Cultural do Brasil. A manifestação é associada especialmente a São Benedito, embora também possa aparecer em diferentes festas e contextos culturais.

Quem quiser conhecer uma roda deve procurar eventos públicos ou atividades divulgadas por instituições culturais e grupos tradicionais. Durante a apresentação, vale manter distância dos tambores, evitar interromper os cantadores e pedir autorização antes de fazer registros em vídeo ou de participar da dança.

3. O reggae maranhense pode ser dançado em pares e acompanhado por grandes radiolas

O reggae ocupa um espaço particular na cultura do Maranhão, sobretudo em São Luís e em outras cidades do litoral. O gênero, originário da Jamaica, ganhou força no estado a partir da circulação de músicas em rádios e do trabalho de DJs conhecidos como discotecários.

Uma característica que pode surpreender visitantes é a forma de dançar. Em muitos ambientes, o reggae é acompanhado em pares, com movimentos próximos e cadenciados. Em outros, o público dança em grupo, conforme o ritmo e a dinâmica da festa. A experiência é diferente da imagem de shows em que cada pessoa dança de maneira isolada.

As chamadas radiolas também fazem parte dessa tradição. São estruturas de som usadas em festas e bailes, com seleção musical comandada por DJs. Mais do que equipamentos, elas representam uma forma de organizar a festa e de disputar a atenção do público por meio da qualidade do som, da seleção de músicas e da identidade de cada equipe.

A Secretaria de Estado do Turismo registra que o reggae se popularizou no Maranhão na década de 1970 e que o reggae roots tem forte presença no estado. A tradição também se relaciona com a proximidade histórica e cultural do Maranhão com o Caribe.

Para quem não está acostumado, a regra mais importante é respeitar o espaço do outro. Dançar próximo não significa tocar sem consentimento. O visitante pode acompanhar o ritmo, aceitar um convite para dançar e recusar com educação quando não quiser participar.

4. Juçara pode aparecer com farinha, açúcar ou camarão

Outro costume que costuma gerar dúvidas é o consumo da juçara. Fora do Maranhão, muitas pessoas conhecem o fruto pelo nome de açaí e esperam encontrá-lo servido principalmente com frutas, granola ou outros acompanhamentos doces. No estado, porém, a juçara também pode ser consumida de forma salgada ou acompanhada de farinha.

A combinação com farinha de mandioca é uma das formas tradicionais de consumo. Dependendo do local e do gosto de cada pessoa, a polpa pode receber açúcar, farinha ou ingredientes salgados, como camarão. Não existe uma única maneira correta de comer juçara, mas é comum que a escolha dos acompanhamentos cause surpresa em quem chega de outras regiões.

A farinha de mandioca ocupa um lugar importante na alimentação maranhense e aparece em diferentes refeições. O IBGE destaca o consumo da farinha com juçara, além de seu uso em pirões, farofas e outros pratos.

A juçara também está ligada a festas, agricultura familiar e formas de aproveitamento dos frutos regionais. Em São Luís, a região do Maracanã é conhecida pela produção e pela realização de eventos dedicados ao alimento. A Festa da Juçara reúne gastronomia, apresentações culturais e atividades comunitárias.

Para experimentar, a dica é perguntar ao vendedor quais acompanhamentos estão disponíveis e informar se prefere uma versão doce ou salgada. Também é importante não comparar automaticamente a preparação maranhense com sobremesas de açaí de outras partes do país: apesar de haver relação entre os frutos, os hábitos de consumo podem ser diferentes.

5. Festas religiosas misturam devoção, comida e participação comunitária

Em diferentes regiões do Maranhão, festas religiosas não se resumem à cerimônia dentro da igreja ou do terreiro. Elas podem envolver cortejos, música, distribuição de alimentos, decoração, visitas, promessas e reuniões familiares. A participação comunitária costuma ser tão importante quanto o calendário oficial do evento.

A Festa do Divino Espírito Santo é um exemplo dessa dimensão coletiva. A tradição inclui momentos religiosos, apresentações, refeições e atividades organizadas por comunidades. Em algumas localidades, há casas responsáveis por receber participantes e oferecer comida, enquanto grupos se revezam na preparação dos festejos.

O tambor de Mina também faz parte da história religiosa e cultural maranhense. A expressão designa uma religião de matriz africana difundida a partir de São Luís, com tradições próprias e casas de culto que devem ser respeitadas em sua organização e em seus rituais.

Para visitantes, a principal orientação é diferenciar uma festa pública de um ritual reservado. Nem toda cerimônia permite entrada, fotografias ou gravações. Antes de participar, é recomendável verificar se o evento é aberto, seguir as instruções dos organizadores, usar roupas adequadas e evitar comentários que reduzam a prática a uma atração exótica.

A página oficial de cultura e festas populares do Maranhão reúne informações sobre bumba meu boi, tambor de crioula, cacuriá, danças tradicionais, tambor de Mina e festas do calendário popular. Como as programações podem mudar entre cidades e períodos do ano, o ideal é confirmar os detalhes com os organizadores ou com os canais oficiais de cultura e turismo.

Como conhecer os costumes do Maranhão com respeito

O visitante não precisa conhecer todos os códigos culturais antes de chegar. Algumas atitudes simples ajudam a evitar constrangimentos: perguntar antes de fotografar, não interromper apresentações, respeitar espaços religiosos, não tocar em instrumentos ou figurinos sem autorização e aceitar que uma mesma tradição pode ter versões diferentes em cada comunidade.

Também é importante evitar generalizações. O Maranhão reúne áreas litorâneas, cidades históricas, comunidades rurais, territórios quilombolas, povos indígenas e municípios com tradições próprias. Um costume forte em São Luís pode não ter o mesmo significado em outras regiões do estado.

Mais do que uma lista de atrações, esses costumes mostram como cultura, fé, alimentação e convivência estão conectadas no Maranhão. Para quem chega de fora, o melhor caminho é observar, ouvir os moradores e participar apenas quando houver abertura. Assim, a experiência deixa de ser apenas turística e se aproxima do sentido que essas práticas têm para quem as mantém vivas.