quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Dia a Dia

Como é a rotina das comunidades ligadas à coleta do coco babaçu no Maranhão

A rotina das comunidades ligadas à coleta do coco babaçu no Maranhão combina trabalho extrativista, agricultura familiar, organização comunitária e preservação dos babaçuais. Entenda como funciona a coleta, a quebra, o aproveitamento do fruto e os principais desafios enfrentados pelas quebradeiras.

A rotina das comunidades ligadas à coleta do coco babaçu no Maranhão é formada por uma sequência de atividades que começa nos babaçuais e pode terminar em alimentos, óleo, carvão, artesanato e outros produtos. O trabalho envolve principalmente mulheres conhecidas como quebradeiras de coco, mas também mobiliza famílias, associações, cooperativas e grupos comunitários.

Mais do que uma fonte de renda, o babaçu está relacionado à alimentação, à agricultura familiar, à organização social e à defesa do acesso aos territórios. A atividade não é igual em todas as localidades: varia conforme a quantidade de palmeiras, a distância até as áreas de coleta, as regras de acesso e o grau de organização de cada comunidade.

O que é o extrativismo do babaçu

O extrativismo do babaçu consiste na coleta e no aproveitamento de partes da palmeira e de seus frutos sem a necessidade de derrubar a árvore. No Maranhão, a atividade é especialmente associada às mulheres que recolhem os cocos, transportam os frutos, fazem a quebra e retiram as amêndoas.

O estado é reconhecido como uma das principais áreas de ocorrência do babaçu no país. Em comunidades rurais, os babaçuais podem complementar a renda obtida com roças, criação de animais, pesca, trabalhos temporários e produção de alimentos.

Estudos da Embrapa apontam que o extrativismo ainda envolve milhares de famílias em diferentes municípios, embora a participação na atividade e a produção de amêndoas tenham passado por mudanças nas últimas décadas. Entre os fatores estão a redução do valor pago pelo fruto, a dificuldade de acesso às áreas de coleta e a transformação dos territórios rurais.

Como começa o dia de coleta

Em muitas comunidades, a jornada começa cedo, antes das horas mais quentes do dia. As trabalhadoras organizam as ferramentas e seguem para áreas onde há concentração de palmeiras e frutos caídos no chão.

O material de trabalho costuma incluir machado, porrete ou cacete, facão, sacos e recipientes usados para transportar os cocos ou as amêndoas. Dependendo da distância, o deslocamento pode ser feito a pé, em veículos comunitários, com animais de carga ou por outros meios disponíveis na localidade.

A coleta é realizada principalmente com os frutos que caíram naturalmente. As quebradeiras selecionam os cocos encontrados no solo e formam montes próximos às palmeiras ou em pontos escolhidos para facilitar a etapa seguinte.

Em algumas localidades, as mulheres trabalham individualmente. Em outras, formam pequenos grupos para dividir o caminho, a busca pelos frutos e o trabalho no babaçual. Há situações em que cada uma coleta e quebra a própria produção; também existem formas coletivas de divisão do resultado.

A quebra do coco babaçu

Depois da coleta, começa a etapa que deu origem ao nome quebradeiras de coco. O fruto é colocado sobre o fio de um machado, geralmente apoiado no chão, e recebe golpes de um pedaço de madeira. A técnica exige força, precisão e experiência para abrir o coco sem danificar as amêndoas.

A quebra é uma atividade manual e repetitiva. Por isso, o ritmo de trabalho depende da idade, das condições físicas, da quantidade de frutos disponíveis e da necessidade de conciliar o extrativismo com outras tarefas domésticas e produtivas.

Em determinados casos, a quebra ocorre no próprio babaçual. Quando o coco é transportado inteiro, a atividade pode ser feita em casa ou em espaços comunitários. A escolha depende da distância, do volume coletado, das condições de transporte e dos acordos existentes na comunidade.

A rotina também exige separar as amêndoas das cascas e organizar o material para venda ou beneficiamento. Os resíduos não são necessariamente descartados: podem ser usados como combustível, matéria-prima para carvão, cobertura, artesanato ou outras finalidades, conforme as práticas locais.

O papel das mulheres nas comunidades

As mulheres ocupam posição central na cadeia do babaçu. Além de coletar e quebrar o coco, muitas participam da organização de associações, da comercialização, do beneficiamento e das decisões sobre o uso dos babaçuais.

O conhecimento costuma ser transmitido entre gerações. Meninas e jovens aprendem observando mães, avós e outras mulheres da comunidade. Esse aprendizado envolve tanto a técnica de quebra quanto a identificação das áreas de coleta, o reconhecimento do estágio do fruto e o aproveitamento de diferentes partes da palmeira.

A atividade, porém, não se resume ao trabalho no campo. Muitas quebradeiras também cuidam da casa, acompanham a produção agrícola, preparam alimentos e participam de reuniões comunitárias. Por isso, a rotina pode envolver uma sobreposição de tarefas ao longo do mesmo dia.

O trabalho das quebradeiras também deu origem a movimentos de organização social, como o Movimento Interestadual das Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu, que atua no Maranhão e em outros estados da região. Essas organizações defendem o acesso aos babaçuais, a valorização dos produtos e a proteção dos territórios tradicionais.

O que é feito com o coco coletado

A amêndoa é um dos principais produtos obtidos do coco babaçu. Ela pode ser comercializada in natura ou destinada à extração de óleo, usado na alimentação, na fabricação de cosméticos e em outras atividades industriais.

O mesocarpo, parte localizada entre a casca e a amêndoa, também pode ser transformado em farinha. Em grupos comunitários e agroindústrias, essa matéria-prima é utilizada na produção de bolos, pães, biscoitos, mingaus e outros alimentos.

A casca pode ser aproveitada na produção de carvão e como fonte de energia. As folhas e outras partes da palmeira são usadas em coberturas, cestos, esteiras, bolsas e peças de artesanato. O aproveitamento varia conforme os conhecimentos e os equipamentos disponíveis em cada comunidade.

Nos últimos anos, algumas iniciativas passaram a investir no beneficiamento local para reduzir a dependência da venda do coco ou da amêndoa sem processamento. A transformação do produto dentro da própria comunidade pode aumentar o valor agregado e criar novas atividades para as famílias.

Um exemplo é a criação de agroindústrias e unidades de produção comunitária voltadas a alimentos derivados do babaçu. Em Rosário, no Maranhão, uma agroindústria foi apresentada pelo governo estadual como estrutura destinada a apoiar quebradeiras de coco e grupos de produção de alimentos à base do mesocarpo.

Como funciona a comercialização

A venda pode ocorrer de diferentes maneiras. Algumas famílias entregam as amêndoas a comerciantes locais; outras participam de associações, cooperativas ou redes de comercialização. O preço recebido depende da qualidade do produto, da quantidade, do comprador, do transporte e das condições do mercado.

Quando a comunidade consegue armazenar e beneficiar a produção, pode negociar produtos com maior valor agregado. No entanto, isso exige equipamentos, espaço adequado, controle de qualidade, regularização sanitária quando aplicável e acesso a canais de venda.

Programas públicos e projetos de apoio podem contribuir para a compra de equipamentos, a capacitação e a organização produtiva. Ainda assim, as condições de acesso variam e dependem dos editais, dos órgãos responsáveis, da documentação das organizações e das regras de cada programa.

A relação entre coleta e agricultura familiar

O extrativismo do babaçu geralmente não substitui todas as outras atividades da família. Em muitas comunidades, a coleta ocorre junto com o cultivo de arroz, milho, feijão, mandioca, hortaliças e outros alimentos, além da criação de pequenos animais.

A disponibilidade do coco pode ser importante nos períodos em que a renda agrícola diminui. Por isso, o babaçu funciona como uma atividade complementar e, em algumas famílias, como uma das principais fontes de dinheiro.

A combinação de roça e extrativismo também influencia a divisão do tempo. A rotina pode mudar conforme o calendário agrícola, a quantidade de frutos no chão, as chuvas, a distância até o babaçual e as necessidades de cada família.

Acesso aos babaçuais e o chamado Babaçu Livre

O acesso às palmeiras é um dos temas mais importantes para as comunidades. Em áreas cercadas ou submetidas a regras restritivas, a coleta pode se tornar mais distante, difícil ou sujeita à autorização de proprietários.

O chamado Babaçu Livre se refere a leis e acordos que buscam garantir o acesso das quebradeiras aos babaçuais e proteger as palmeiras. Essas normas não são idênticas em todos os municípios. Por isso, a existência de uma regra local, sua abrangência e sua forma de aplicação devem ser verificadas diretamente na prefeitura, na câmara municipal, em órgãos de assistência rural ou em organizações comunitárias.

A mobilização pelo acesso aos babaçuais também está ligada à preservação ambiental. As quebradeiras defendem a manutenção das palmeiras em pé, o uso sustentável do fruto e a redução de práticas que eliminam os babaçuais, como o desmatamento, as queimadas e a derrubada indiscriminada.

Em 2026, o ofício das quebradeiras de coco babaçu nos estados do Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins foi reconhecido como manifestação da cultura nacional pela Lei nº 15.431, de 10 de junho. O reconhecimento valoriza a dimensão cultural do trabalho, mas não substitui as regras específicas de acesso à terra e aos recursos naturais em cada território.

Organização comunitária e planos de manejo

Algumas comunidades criam acordos internos para organizar a coleta, definir áreas de uso, proteger as palmeiras e evitar conflitos. Também podem estabelecer regras sobre a retirada dos frutos, o uso de ferramentas, a divisão de espaços e a comercialização.

Na região do Médio Mearim, estudos registram experiências de elaboração participativa de planos de manejo do babaçu. A proposta é reunir conhecimentos das comunidades e práticas de conservação para orientar o uso dos babaçuais de acordo com as condições locais.

Associações e cooperativas também ajudam a reunir produção, buscar equipamentos, participar de programas públicos e negociar com compradores. Para quem deseja conhecer ou apoiar uma iniciativa, o caminho mais seguro é procurar organizações comunitárias, sindicatos de trabalhadores rurais, cooperativas e órgãos oficiais de assistência técnica.

Principais desafios enfrentados

Entre os desafios estão a dificuldade de acesso às áreas de coleta, a queda ou instabilidade dos preços, o transporte dos frutos, a falta de equipamentos e a concorrência com atividades que substituem os babaçuais por pastagens ou lavouras extensivas.

Outro problema é a sobrecarga de trabalho das mulheres. A coleta e a quebra se somam às tarefas domésticas, ao cuidado com crianças e idosos e à produção de alimentos. Em algumas comunidades, a falta de jovens interessados na atividade também preocupa, embora existam iniciativas para aproximar novas gerações do beneficiamento e do empreendedorismo comunitário.

A crise da cadeia do babaçu não significa que a atividade tenha desaparecido. Ela mostra que a produção tradicional precisa de políticas de acesso ao território, assistência técnica, melhoria da comercialização e valorização dos produtos da sociobiodiversidade.

Como conhecer ou apoiar essas comunidades

Quem deseja conhecer o trabalho pode buscar informações em órgãos de agricultura familiar, universidades, instituições de pesquisa, movimentos de quebradeiras e associações locais. Visitas a comunidades devem ser combinadas previamente e respeitar as regras definidas pelos moradores.

Também é possível valorizar a atividade por meio da compra de produtos de origem comunitária, desde que sejam identificados os produtores, a procedência e as condições de comercialização. Em caso de interesse em participar de projetos ou programas públicos, é importante verificar os canais oficiais e os requisitos atualizados.

A rotina das comunidades ligadas à coleta do coco babaçu no Maranhão reúne trabalho físico, conhecimento tradicional, geração de renda e defesa ambiental. Entender esse cotidiano ajuda a reconhecer que o babaçu não é apenas um fruto encontrado no campo, mas parte de uma cadeia econômica e cultural construída por famílias que dependem dos territórios e dos saberes transmitidos entre gerações.

Fontes consultadas

As informações foram verificadas em materiais do IBGE, da Embrapa, do Fundo Amazônia, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e da legislação federal.